domingo, 30 de maio de 2010

Resenha do livro de PEREIRA, Sônia Maria de Souza. Bullying e suas implicações no ambiente escolar. São Paulo: Paulos, 2009.



O cinema nos últimos dez anos tem nos apresentado uma série de filmes que abordam a violência nas escolas. Basta assistir: Visitor Q (Japão/2001), Tiros em columbine (EUA/2002), Elefante (EUA/2003), Escola da Violência (Coréia do Sul/2006), É só uma questão de tempo (Austrália/2006), Klass (Estônia/2007), A onda (Alemanha/2008), Entre os Muros da Escola (França/2009). Embora nem todos os filmes sejam baseados em fatos reais, eles demonstram que o problema da violência nas escolas é comum ao conjunto das sociedades.
No Brasil, como sabemos, não é diferente; Professores convivem com cenas reais de brigas entre alunos que envolvem agressões fisicas com socos, chutes, ou agressões psicológicas, por meio de ofensas, difamações (inclusive dirigidas aos próprios professores); ou ainda, grupos de alunos ou ex-alunos depredando o patrimônio, munidos de armas ou drogas, comprometendo a integridade da vida escolar.
As formas de violência no ambiente escolar são variadas e envolvem uma mutiplicidade de atos. O mesmo ocorre com os fatores determinandes para sua ocorrencia, pois abarcam desde questões psicolólogicas, familiares, socioeconômicos, ou ainda, circunstânciais, como o uso de drogas liicitas ou ilicitas.
No contexto das diferentes formas de manifestações da violência na escola temos ainda o bullying, termo de origem inglesa, derivado do adjetivo bully, que significa valentão, tirano; um tipo de violência entre os alunos, caracterizada pela ocorrência de agressões de ordem física e/ou psicológica, geralmente por um longo período e de forma repetitiva, na qual se evidencia um desequilíbrio de poder entre agressor e vítima.
O bullying é um problema que vem sendo detectado como problema em muitas escolas, sejam públicas ou privadas; Ainda assim, muitos profissionais da educação desconhecem suas características, ou as graves consequências dos atos cruéis e intimidadores. Por conta desse desconhecimento, ele é confundido com a indisciplina ou brincadeiras entre alunos ou grupos de alunos, por vezes, de caráter físico, que envolvem contato pessoal, discussões ou brigas corriqueiras, ocasionais, em pares de igual força e poder.
Nesse sentido, o livro Bullying e suas implicações no ambiente escolar, fruto de uma monografia defendida no curso de Pedagogia da UFBA em 2007, sob a orientação da professora Selma Borges, é uma obra importante, pois ajuda pais e profissionais da educação no entendimento dessa temática. Por meio de uma revisão bibliográfica, a autora analisa porque é tão difícil para as escolas detectarem o bullying, quais as consequências para o desenvolvimento cognitivo e afetivo dos alunos vitimados; como as escolas e as famílias podem prevenir e combater o bullying.
O livro é composto de pequenos capítulos, seis ao todo., incluíndo conclusão. De maneira clara e objetiva, a autora, apresenta na introdução a estrutura do livro, pontuando que seu trabalho não tem pretensão de apresentar soluções definitivas, mas desenvolver algumas reflexões sobre gravidade do problema, assim como, medidas para o seu enfretamento no ambiente escolar.
No capítulo dois, a autora, revisa os conceitos de violência e seus possíveis condicionates como fator explicativo desse fenômeno. Considera que o conceito varia em diferentes períodos da história da humanidade, ou seja, depende da forma que cada indivíduo compreende o tema, a partir de seus valores e sua ética. Assim, o termo é complexo e polissêmico, visto que é usado para designar fenômenos variados e distintos. Dentre os fatores determinantes para violência, entre os mais citados em sua revisão bibliográfica, está a desestruturação familiar, e o alto índice de exclusão social.
No capítulo três, parte do histórico para explicar o conceito de bullying, e as diferenças entre bullying e indisciplina. Essa discussão que a autora traz é importante, porque, sabemos que embora os estudos sobre a questão da violência na escola já aconteciam desde anos 70, na Suécia, Reino Unido, Estados Unidos da América (EUA), só nos anos 80 que, Dan Olweus, pesquisador da Universidade de Bergen na Noruega, desenvolveu os primeiros critérios para detectar o problema de forma especifica, e assim diferenciá-lo, de outras possíveis interpretações, que envolviam indisciplina, e brincadeiras entre alunos, as chamadas gozações. Já no Brasil, até 2003 o termo não era mencionado nas pesquisas sobre violência escolar, somente em 2005, conforme a autora, os estudos de Lopes Neto (2005), Fante (2005), Seixas (2005) e Murriel et al. (2006) discutem a questão. (p.36)
Segundo Pereira, o bullying se manifesta através de insultos, intimidações, apelidos cruéis, gozações que magoam profundamente , acusações injustas, tomar pertences, meter medo, atuação de grupos que hostilizam, ridicularizam e infernizam a vida de outros alunos, levando-os à exclusao, além de danos físicos, morais e materiais. (p.31)
Em geral, podemos notar, que as vítimas não dispõem de recursos, status e habilidade para reagir porque estao numa relação desigual de poder com os agressores, ou por razões psicológicas, econômicas ou sociais. Os agressores se valem destas incapacidades para infligir dano, seja porque alcançaram algum tipo de gratificação emocional com tal postura, ou pretendem obter alguma vantagem especifica, como se apossar de dinheiro, deobjetos da vitima, ou ainda, solidificar posições na hierarquia do grupo onde estão inseridos, e aumentar sua popularidade entre os demais colegas. O caráter intencional ainda é justificado pela escolha de grupos com características físicas, socioeconômicas, de etnia e orientação sexual, específicas.
Nesse sentido, ser diferente é um pretexto para que o autor do bullying satisfaça a sua necessidade de agredir, ofender e humilhar alguém. Os agressores buscam em suas vítimas algumas diferenças em relação ao grupo no qual estão inseridos. A prática de bullying se constitui numa prática de rejeição perversa, que priva o indivíduo, considerado “diferente e inferior”, de sua dignidade, e de seu direito de participar e existir socialmente.
A autora estabelece diferença entre disciplina indisciplina e bullying: Disciplina são regras básicas de convivência, a indisciplina pode ser percebida como uma fuga ás regras, uma não obdiência, pelo aluno, às regras preestabelecidas, no caso da escola. (p.52) Porém não podem ser confundidas, visto que, a primeira provoca transtornos disciplinares de fácil solução. A segunda, provoca transtornos mais complicados, pois prejudica o desenvolvimento natural de seus envolvidos, tanto no emocional como no cognitivo e psicológico.
No capítulo quatro, apresenta as consequências e implicações do bullying, tanto para vítima, quanto para agressor, demonstra os aspectos psicológicos e cognitivos implicados. Para os agressores, as provavéis conseguências podem ser: crença na força para solução dos seus problemas; dificuldade em respeitar a lei e os problemas que daí advém; problemas de relacionamento afetivo social. (p.62) Já para as vítimas, existe perda de concentração na escola, de autoestima, problemas de relacionamento, síndrome do pãnico, depressão, e podem levar a atitudes mais extremas, como o suicídio.
No quinto capítulo, discute alguns modelos de prevenção/intervenção de alguns países para minimizar a violência nas escolas. No entanto, aponta que não existe uma receita única, mas várias que deram certo, como as estratégias estabelecidas no currículo, no projeto pedagógico, articuladas a gestão da escola.
Além disso, considero importante que cada escola estabeleça um projeto que reconheça seus limites, possibilidades, compreendendo ainda sua diversidade. É preciso ainda, que a união, as secretarias estaduais e munícipais se comprometam com a formação de professores para o enfretamento do bullying. Portanto o livro é uma excelente oportunidade para começarmos o debate no espaço escolar; um suporte teórico que nos ajudará, entre outras questões, a distinguir os alunos que práticam bullying dos alunos indisciplinados, e medidas de intervenção para sua prevenção.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Cyberbullying é discutido no filme "As Melhores Coisas do Mundo".

As Melhores Coisas do Mundo, filme de Laís Bodanzky, em cartaz nos cinemas do país, conta a história de Hermano, um menino de 15 anos que em meio à separação dos pais e a crise do irmão passa pelos dramas da adolescência. Fala das dores, das dificuldades dessa fase tão paradoxal.O cyberbullying é mostrado de duas formas: uma das personagens mantém um blog com fofocas e há ainda a troca de mensagens comprometedoras pelo celular. A foto de uma aluna numa pose sensual começa a circular sem sua autorização. O filme tenta ser o mais fiel possível à realidade de milhares jovens no Brasil. Tem um texto sensível, a direção é cuidadosa, tem a cara do jovem paulistano, mas que também identificamos nele, características de jovens de outras cidades, e, por que não, mundial, comprovando que os conflitos desta fase são universias. Laís Bodanzky foi também responsável por "O Bicho de Sete Cabeças" e "Chega de Saudade". Para compor seu último longa,Laís e o roteirista Luiz Bolognesi foram a escolas de São Paulo para ouvir os adolescentes e realizar um projeto que realmente os representasse, característica bastante presente na filmografia da diretora. Desse processo, Laís concluiu que "adolescência é sempre adolescência" e não sentiu diferença nas situações vividas pelos jovens atuais com aquelas da sua geração. No Jornal A Tarde de 2/04/2010 a diretora destacou que um fator que lhe espantou é que hoje a tecnologia favorece para que eles vivam essas emoções com mais intensidade", comenta. "Não dá pra negar que o celular, a internet e os iPods intensificam essa fase da vida." Tanto intensificam que o uso desses instrumentos para disseminar o bullying (agressão física ou psicológica) entre os estudantes é explorado com destaque no filme. Como ela define o “Cinema é reflexão, cidadania e educação”, concordo com essa afirmação. Vejam o filme, discutam entre colegas, ele é uma ótima fonte para entender os adolescentes que estamos educando na contemporaneidade.


segunda-feira, 3 de maio de 2010

Cyberbullying na Revista Veja desta semana


Um em cada seis estudantes brasileiros do ensino fundamental
já foi alvo de bullying no mundo virtual. Isolamento, medo
e até depressão são sinais evidentes desse tipo de violência
Veja a reportagem na íntegra em:

http://veja.abril.com.br/050510/tecnologia-a-servico-brutos-p-098.shtml

http://veja.abril.com.br/especiais_online/bullying/index.shtml

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Projeto de lei no Senado garantirá prestação jurisdicional nos casos de violência contra professores.

O projeto de lei do senador Paulo Paim (PT/RS) de número Nº 191, vai estabelecer procedimentos de socialização e de prestação jurisdicional e prevê medidas protetivas para os casos de violência contra o professor oriunda da relação de educação. Veja trecho:

O CONGRESSO NACIONAL decreta:
Art. 1º Esta Lei estabelece procedimentos de socialização e de prestação jurisdicional e prevê medidas protetivas para os casos de violência contra o professor oriunda da relação de educação.

Art. 2º Para os efeitos desta Lei, configura violência contra o professor qualquer ação ou omissão decorrente da relação de educação que lhe cause morte, lesão corporal ou dano patrimonial, praticada direta ou indiretamente por aluno, seus pais ou responsável legal, ou terceiros face ao exercício de sua profissão.

Quero compartilhar minha alegria de ver que essa questão tem sido preocupação do Congresso Nacional, isso vai garantir medidas de punição, acompanhamento médico-psicológico para professores vítimas da violência oriunda da relação escolar. Um avanço na compreesão legal desse problema, a assimetria jurídico-instrumental entre professores e alunos, ou seja, o ordenamento jurídico fornecia um forte aparato de proteção a um lado (crianças e adolescentes), sem um correspondente contrapeso do outro (educadores), com a lei isto muda.

Vamos acompanhar o projeto, divulguem, é preciso participação popular. A lei ainda precisará ampliar a compreensão sobre violência. O assédio moral, as ofensas, calúnias, difamações, a violência engendrada pelo meio virtual, muito recorrente.

http://www.senado.gov.br/sf/atividade/materia/detalhes.asp?p_cod_mate=91006

domingo, 25 de abril de 2010

Pesquisa sobre bullying nas escolas brasileiras

Hoje tive contato com resultados da pesquisa sobre bullying realizada pela Plan, uma organização não-governamental de origem inglesa que está voltada para a defesa dos direitos da infância. Trabalha pela proteção, contra a violência e abusos de todo tipo, contra a pobreza e a desigualdade.

A pesquisa foi realizada em 2009, por meio da coleta e da análise de dados quantitativos e qualitativos, com foco nas seguintes dimensões do tema:

• Incidência de maus tratos e de bullying no ambiente escolar;
• Causas de maus tratos e de bullying no ambiente escolar;
• Modos de manifestação de maus tratos e de bullying no ambiente escolar;
• Perfil dos agressores e das vítimas de maus tratos e de bullying no ambiente escolar;
• Estratégias de combate aos maus tratos e ao bullying no ambiente escolar.

Resultados indicaram que a ocorrência do bullying emerge em um clima generalizado de violência no ambiente escolar, considerando-se que 70% da amostra de estudantes responderam ter presenciado cenas de agressões entre colegas, enquanto 30% deles declararam ter vivenciado ao menos uma situação violenta no mesmo período. O bullying, caracterizado como ações de maus tratos entre colegas – tendo como base frequência superior a três vezes durante o ano letivo pesquisado -, foi praticado
e sofrido por 10% do total de alunos pesquisados, sendo que % disseram reproduzir os maus tratos sofridos se convertendo em vítimas e autoras ao mesmo tempo.

Esse estudo pretende ainda alertar e orientar não só estudantes e docentes escolares, mas toda a sociedade, a fim de contribuir com a redução da violência no ambiente escolar.

O relatório integral com resultados do estudo pode ser acessado na página da ONG

http://www.aprendersemmedo.org.br/?p=download-pesquisa-bullying

sábado, 24 de abril de 2010

Sobre o bullying

Tenho recebido alguns e-mails de estudantes e professores com perguntas sobre o bullying. Estarei colocando aqui sugestões de bibliografia e ONG que tem apoiado o combate da violência nas escolas.
O bullying é definido como atitudes agressivas de todas as formas, praticadas intencional e repetidamente, que ocorrem sem motivação evidente, causando dor e angústia, e são executadas dentro de uma relação desigual de poder. Importante colocar que o bullying não ocorre apenas entre pares (alunos), ele também pode ocorrer em outros ambientes, o empresarial, na área militar, em espaços de lazer, em presídios, ou seja, em espaços não escolares. No entanto, como nosso ambiente de trabalho é a escola, é neste espaço que cotidianamente professores se deparam com atitudes agressivas (e repetitivas) entre alunos. Para identificação da prática de bullying é importante observar seis define seis elementos centrais. A práticas de agressão física, verbal ou psicológica (intimidação); o agressor é mais poderoso ou pelo menos, assim é visto pela vítima; há a intenção de causar medo e/ou dor à vítima; a agressão não é provocada pela vítima; as agressões são repetidas; os agressores alcançam o resultado desejado.


Dicas de autores:

SILVA, Ana Beatriz Barbosa. Bullying: Mentes Perigosas na Escola. Editora Fontanar (2009)


FANTE, C.Fenômeno bullying: Como prevenir a violência nas escolas e educar para a paz (2. ed.). Campinas, SP: Versus, 2005.

NOGUEIRA, R.M.C.P.A. A prática de violência entre pares: o bullyng nas escolas. Revista Iberoamericana de Educación - n.37 p.93-102, 2005. Disponível em:[http://www.rieoei.org/rie37a04.htm]

OLWEUS, D. Bullying at school: what we know and we can do. Oxford: Blackwell, Publishing, 1993.

ORTEGA, R. & Jäger, T. (eds) Acting against school bullying and violence. The Role of Media, Local Authorities and the Internet. Landau: Verlag Empirische Pädagogik, 2007.

SMITH, P. K. (2002). Intimidação por colegas e maneiras de evitá-la. In E. Debarbieux & C. Blaya (Eds.), Violência nas escolas e políticas públicas (pp. 187-205). Brasília, DF: Unesco.

SMITH, P. K., COWIE, H., OLAFSSON, R. F., & LIEFOOGHE, A. P. D.. Definitions of bullying: A comparison of terms used, and age and gender differences, in a fourteen-country international comparison. Child Development, 73(4), 1119-1133. 2002 .

ROLIN, M. F. Bullying: o pesadelo da escola. Um estudo de caso e notas sobre o que fazer. Programa de Pós-graduação em Sociologia, UFRGS, 2008.

Mais alguns livros que ajudam bastante o professor:


A Face Oculta, Maria Tereza Maldonado, 96 págs., Ed. Saraiva, tel. (11) 3933-3366, 25,50 reais
Bullying: Mentes Perigosas na Escola, Ana Beatriz Barbosa Silva, 189 págs., Ed. Fontanar, tel. (21) 2199-7824, 33,90 reais
Fenômeno Bullying: Como Prevenir a Violência nas Escolas e Educar para a Paz, Cléo Fante, 224 págs., Ed. Verus, 29,00 reais.


Você também poderá encontrar na Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações vários trabalhos a partir do descritor bullying, em áreas como: educação, saúde, sociologia, psicologia. Vemos o interesse de programas de pós graduação em abordar a temática de maneira multidisciplinar.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

O Bullying na Revista ISTOÉ desta semana


Na revista ISTOÉ desta semana tem uma reportagem com o pesquisador do EUA Allan Beane sobre o BULLYING. Vejam um trecho: No Brasil, situações de violência entre alunos acontecem diariamente. Referência mundial no assunto, com sete livros publicados, além de 36 anos de experiência como educador da Murray State University (Kentucky, EUA), o americano Allan Beane, 60 anos, afirma que o bullying sempre existiu, mas nunca foi tão frequente e cruel. Beane, que acaba de lançar no Brasil o livro “Proteja Seu Filho do Bullying”, fala com um triste conhecimento de causa. Ele perdeu o filho há dez anos por consequências indiretas da violência praticada nas escolas.
Para acesso ao texto na íntegra:
http://www.istoe.com.br/assuntos/entrevista/detalhe/65710_AS+ESCOLAS+FECHAM+OS+OLHOS+AO+BULLYING+